segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Burnout: a síndrome do cansaço extremo

por Marly Sorel Campos*
*Psicanalista e professora associada da Fundação Dom Cabral.

O trabalho é uma importante fonte de realização para as pessoas uma vez que, por meio da produção, cada um de nós sente que oferece sua contribuição à sociedade e constrói sua marca pessoal. Entretanto, hoje, a maioria dos profissionais enfrenta uma jornada de trabalho corrida e cheia de pressões por prazos, metas e resultados.

O mercado, cada vez mais competitivo, leva as organizações a aumentarem a cobrança sobre seus profissionais. Mas, esse excesso de trabalho pode trazer severas conseqüências para a saúde das pessoas. Se você vem se sentindo fatigado, impaciente, pessimista e desmotivado pelo trabalho, pode estar apresentando a Síndrome do Cansaço Extremo, ou, em inglês: Síndrome de Burnout.

Trata-se de um transtorno que, de forma crescente, vem afetando diversos profissionais, independente da idade, do setor em que atuam ou da posição que ocupam nas empresas. Esse distúrbio é derivado de uma angústia do profissional em sentir que não conseguirá dar conta das crescentes demandas de trabalho e reflete seu esgotamento. Em outras palavras, é como se uma máquina parasse de funcionar por absoluta falta de energia.

Dentre seus sintomas psíquicos, podem-se destacar: apatia ou desinteresse pelo trabalho, indiferença ou afastamento das outras pessoas, exaustão profissional, irritabilidade e impaciência. O sujeito pode ter sua auto-estima afetada por uma sensação de incapacidade ou de incompetência, já que passa a desvalorizar a própria produção ou considerá-la aquém de suas reais possibilidades. Os sintomas podem também refletir-se no plano físico por meio de enxaquecas, sensação de náusea, dor lombar ou cervical, perturbação no sono, falta de apetite problemas ligados a dermatites, disfunções sexuais e distúrbios cardiovasculares.

As causas dessas perturbações podem ser divididas em três dimensões: na organização, na sociedade e no indivíduo. Na primeira dimensão, estão as empresas que apresentam normas muito rígidas, que não propiciam autonomia e liberdade para a criação. Além disso, a pressão por qualidade e quantidade pode ultrapassar o tempo disponível ou mesmo a experiência e a formação do profissional. O que pode ser agravado por chefias que não reconhecem o trabalho realizado e apontam apenas os erros. Nesses casos, o profissional pode achar que não tem domínio sobre seu trabalho que, por conseqüência, acaba perdendo seu sentido.

No âmbito social, observamos a ênfase no intenso incentivo ao consumo, gerando novas necessidades e a ilusão de que a posse de um objeto poderá gerar felicidade. Isto pode levar as pessoas a buscarem níveis superiores de remuneração e, às vezes, mais de uma ocupação ou emprego, com sobrecarga de trabalho e, consequentemente, pouco tempo para descanso e lazer.

Por fim, no contexto pessoal, profissionais extremamente exigentes consigo mesmos, competitivos, com dificuldade em tolerar frustrações ou com propensão à depressão apresentam maior probabilidade de desenvolver a síndrome do burnout. Um momento de crise, como o atual, gera angústia e pode acender sentimentos de insegurança nos profissionais, especialmente quando não há sinais claros do rumo que a empresa vai adotar.

Lidar com este transtorno é um desafio que envolve a reflexão sobre os valores sociais, a restauração de vínculos e o apoio das organizações para a construção de projetos coletivos. A ajuda de especialistas, psicólogos e médicos poderá favorecer a revisão da rotina e a adoção de medidas específicas para um equilíbrio mais saudável. Nesse processo, também é fundamental buscar o autoconhecimento e estar atento ao ser, ao querer, às capacidades e aos limites pessoais.