sábado, 8 de agosto de 2009

O Pensamento social de Freud

3.) O Pensamento social de Freud

Na vasta obra de Freud, apesar desta ter sido, de início, predominantemente voltada para a questão clínica, encontra-se a preocupação de se construir uma compreensão - sempre orientada através de uma ótica voltada às suas investigações clínicas-, sobre a condição humana. Para ele a humanidade e sua cultura é uma patologia, e assim ele desenvolve todo seu trabalho sem dissociar o patológico encontrado no indivíduo do patológico identificado no comportamento da sociedade e da civilização.

Todo o edifício teórico da psicanálise está fundado na compreensão do sujeito perante suas defesas e estratégias para interagir com o mundo externo através daquilo que ele consegue identificar como sendo o seu ser, o qual se move na busca incessante de realizar seus desejos.

Sobre esta abrangente afirmação, Freud constrói com sua obra, um vastíssimo conjunto de descobertas, que vêm fundar um saber original sobre os mecanismos mais profundos do ser humano [1]. Consegue, através da investigação clínica associada a uma sólida formação intelectual, sistematizar, em grande parte, o funcionamento daquilo que pode ser considerado a pedra angular de todo o saber psicanalítico: o inconsciente. Suas descobertas vão gradativamente identificando fenômenos e relações causais neste universo até então enigmático para a humanidade, delineando a prevalência do inconsciente sobre a vida humana. Inicialmente, interpretando os sonhos dos seus pacientes, e os seus próprios (Cf. ANZIER: 1989), Freud vai consolidando com invejável rigor científico um vasto campo teórico no qual assentaria a psicanálise. Paralelamente a esta investigação do microcosmo do ser humano, este constrói uma ponte teórica entre o ser humano e a civilização, não deixando de identificar uma forte relação causal entre o sofrimento neurótico do ser humano e o próprio processo civilizatório em que o mesmo está imerso. É sobre este traço do pensamento freudiano, o desenvolvimento da civilização e sua relação na estruturação psíquica do indivíduo, aqui identificado como o seu pensamento social, que se buscará refletir.

O Mal-Estar na Civilização

Escrito em 1929, e publicado em 1930, O Mal-Estar... tem como tema principal o conflito irremediável entre as exigências da pulsão do ser humano e as restrições impostas pela civilização, [2] podendo ser considerada como uma síntese do pensamento social de Freud. [3]

Respondendo a uma carta do seu amigo Romain Rolland [4], o qual após ler O Futuro de uma Ilusão (FREUD: 1927), define a fonte da religiosidade como sendo um sentimento de eternidade, um sentimento de algo ilimitado sem fronteiras, ou sentimento oceânico, que alguns seres humanos experimentam, Freud dá início ao seu famoso ensaio apresentando o conceito de eu na psicanálise.

Ele tenta investigar, através da psicanálise, as causas e origens deste `sentimento oceânico'. E é utilizando suas teorias sobre o Eu [5] que ele apresenta uma outra versão para aquilo que se dizia como a fonte da religião.

Apresentando uma interessante e rica visão do Eu, fruto de suas reflexões sobre décadas de investigação psicanalítica Freud assim se expressa:

O Eu nos aparece como algo autônomo e unitário, distintamente demarcado de tudo o mais. Ser essa aparência enganadora - apesar de que, pelo contrário, o Eu seja continuado para dentro, sem qualquer delimitação nítida, por uma entidade mental inconsciente que designamos como id, à qual o Eu serve como uma espécie de fachada -, configurou uma descoberta efetuada pela primeira vez através da pesquisa psicanalítica, que, de resto, ainda deve ter muito mais a nos dizer sobre o relacionamento do Eu com o id. No sentido do exterior, porém, o Eu, de qualquer modo, parece manter linhas de demarcação bem claras e nítidas. ( FREUD; p. 83:1930) [6]

Aqui Freud apresenta, de forma sucinta, que existe uma ilusão sobre aquilo que o ser humano tinha durante séculos de civilização imaginado como de inquestionável certeza, o seu próprio eu. A descoberta de uma instância inconsciente na estrutura do indivíduo humano, representa a quebra da ilusão do predomínio universal da razão humana ou, na melhor das hipóteses, que esta é centrada em bases não tão sólidas como se imaginava. Com relação ao mundo exterior, apesar de aparentemente o Eu `manter linhas de demarcação bem claras e nítidas', Freud demonstra que esta demarcação não é tão clara assim.

Há somente um estado - indiscutivelmente fora do comum, embora não possa ser estigmatizado como patológico- , em que ele (o Eu) não se apresenta assim. No auge do sentimento de amor, a fronteira entre Eu e objeto ameaça desaparecer. ( p.83)

Apesar de reconhecer que tais fronteiras são rompidas por uma ação causal (o amor), ele demonstra que estados patológicos são capazes de romper esta barreira entre o Eu e o objeto.

Há casos em que partes do próprio corpo de uma pessoa, inclusive partes de sua própria vida mental - suas percepções, pensamentos e sentimentos - lhe parecem estranhos e como não pertencentes ao seu Eu. Há outros casos em que a pessoa atribui ao mundo externo coisas que claramente se originam em seu próprio Eu e por este deixam de ser reconhecidos ( p.84)

Fazendo uma descrição resumida - já confirmada em outras obras -, de suas descobertas Freud descreve como se desenvolve o Eu em um ser humano. Quando a criança é recém - nascida, esta ainda é incapaz de distinguir o seu Eu do mundo externo, este mundo como fonte de sensações que fluem sobre ela. O primeiro momento em que o Eu é contrastado com um objeto é quando este descobre que uma fonte vital de prazer lhe é subtraída, só reaparecendo quando grita. Esta fonte é o seio da mãe; na realidade, o primeiro objeto que diz existir algo externo a ele. A outra função importante que forja o Eu, forçando-o a separar-se da `massa geral de sensações', é o confronto movido pelo `princípio do prazer', uma das forças motrizes de todo o desenvolvimento humano, com as inevitáveis sensações de sofrimento e desprazer.

Surge, então, uma tendência a isolar do Eu tudo o que pode tornar-se fonte de tal desprazer, a lançá-lo para fora e criar um puro Eu em busca do prazer, que sofre o confronto com um exterior estranho e ameaçador. ( p.85)

É através desta luta do homem com o seu mundo exterior que começa a se diferenciar o Eu do mundo externo, começando o ser humano a introduzir o `princípio de realidade', que estruturará todo o seu desenvolvimento posterior. A finalidade do `princípio de realidade' é, no seu confronto com o princípio do prazer, capacitar o ser humano a construir defesas que o protejam dos desprazeres de que o mundo externo o ameaça.

Descrevendo a estruturação do Eu do ser humano, Freud identifica nesta relação do Eu com os objetos existentes no mundo externo, principalmente com sensações que estes objetos causam no interior do ser, um importante ponto de partida de distúrbios patológicos.

Entretanto, algumas das coisas difíceis de serem abandonadas, por proporcionarem prazer, são, não Eu, mas objeto, e certos sofrimentos que se procura extirpar mostram-se inseparáveis do Eu, por causa de sua origem interna......A fim de desviar certas excitações desagradáveis que surgem do interior, o Eu não pode utilizar senão os métodos que utiliza contra o desprazer oriundo do exterior, e este é o ponto de partida de importantes distúrbios patológicos. (p.85)

Tenta finalmente explicar as origens do sentimento oceânico que seu amigo Romain Rolland tinha utilizado para explicar as fontes da religiosidade, ou seja, a relação do ser humano com um ser infinito e abstrato que é fundada neste sentimento.

Demostrando que as origens desse sentimento religiosos estão na própria gênese do ideal do Eu, e portanto no íntimo do ser humano, Freud apresenta a evolução e a própria instituição do ser humano como sujeito, no momento em que o Eu se separa do mundo externo. O que era para o Eu inicialmente um único universo (Eu e o mundo externo), forçado pelo princípio de realidade o Eu se constitui limitado em suas dimensões. `O Eu não passa, portanto, de apenas um mirrado resíduo de um sentimento mais inclusivo - na verdade, totalmente abrangente -, que corresponde a um vínculo mais íntimo entre o Eu e o mundo que o cerca. ( pp.85,86)' assim, em muitas pessoas este sentimento primário persiste, lado a lado, ao sentimento mais restrito de Eu, sendo a sua representação mais adequada o `sentimento oceânico' de vínculo com o universo.

Para Freud, portanto, o sentimento religioso estaria fundado não em uma impressão que transcende o homem, que o liga misticamente ao universo, e que o ajuda a aceitar as intempéries da vida. Este sentimento seria apenas uma reprodução, em escala menor, daquilo que o ser humano foi na sua origem, um ser ilimitado em suas relações com o mundo, uma vez que quem estabelece este limite, ou a falta dele, é o Eu, nesta fase ainda embrionária e difusa da formação do sujeito.

É portanto, com o seu pensamento voltado para a revolucionária concepção do Eu, desenvolvida na psicanálise, tomando como provocação a questão da religião, que Freud inicia o seu principal ensaio sobre a civilização e a humanidade. Esta concepção do Eu e sua relação com o mundo (tanto externo como interno), na qual a psicanálise demonstra que todas as barreiras podem ser derrubadas, - uma vez que o Eu se constitui estruturalmente nas suas relações libidinais de objeto -, vem causar sérias implicações no campo da filosofia, tendo sido tal descoberta classificada por Lacan (Cf. LACAN: 1987) como uma revolução de dimensões copernicianas, tamanho o impacto sobre o pensamento humano que esta viria a causar.

Refletindo agora sobre o propósito da vida humana, Freud identifica, apesar de reconhecer que as suas pretensões não são ambiciosas a ponto de elucidar esta questão, um princípio geral que mostra ser o propósito que move todo ser humano diante da vida `A resposta mal pode provocar dúvidas. Esforçam-se para obter felicidade; querem ser felizes e assim permanecer ` ( p.87).

Assim identifica o propósito da vida humana em buscar intensamente o prazer e evitar o sofrimento, concluindo que o que define o propósito da vida é o princípio do prazer. Reconhece entretanto que este objetivo jamais será satisfatoriamente alcançado uma vez que tanto o macrocosmo quanto o microcosmo do homem jogam em sentido contrário a este princípio.

Enquanto que a felicidade é impossível de ser alcançada, limitada pela própria constituição do ser humano, o sofrimento ataca o homem por três flancos: o primeiro, a partir do próprio corpo 'condenado à decadência e à dissolução', o segundo através das forças destruidoras e poderosas do mundo externo e finalmente o sofrimento decorrente do relacionamento com outros seres humanos, classificando este último como o mais penoso de todos. Diante destas forças o ser humano se vê obrigado, como uma forma de defesa diante delas, a moderar as suas expectativas domesticando o princípio do prazer, reduzindo-o a um mero princípio de realidade. Colocando em primeiro plano a já árdua tarefa de evitar o sofrimento a busca pelo atendimento ao princípio do prazer passa a ser secundária.

Fazendo uma sinopse das diversas formas e métodos pelos quais a humanidade vem tentando buscar o prazer, apesar de em nenhuma delas ter-se a garantia de sucesso, identifica a intoxicação química, a religião e a fruição das obras de artes como formas legítimas de se conseguir prazer, colocando em primeiro plano uma importante técnica à arte de viver, que é o amor `Este conjunto de processos mentais internos que dirigem a sua libido para um objeto para extrair satisfação deles'. ( p.101)

Entretanto, mesmo esta arte, como ele coloca, é frágil em garantir uma perene realização do princípio do prazer, uma vez que o ser apaixonado demonstra uma grande vulnerabilidade diante do seu objeto.

É que nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor. Isso, porém, não liquida com a técnica de viver. Há muito mais a ser dito a respeito. (p.101)

Finalmente ele situa o ser humano diante de um dilema existencial. Apesar de não se poder realizar o programa do princípio do prazer o homem não pode abandonar o esforços de conseguir aproximar-se da consecução do mesmo, passando a ser um desafio essencialmente subjetivo que perpassa o indivíduo ao longo de sua existência

Tendo apresentado a concepção do Eu, com as implicações que a psicanálise traz e tendo apresentado o princípio do prazer e o princípio de realidade como duas forças que movem e moldam o ser humano na sua relação com o mundo externo, Freud dá início a uma reflexão sobre as relações sociais, o que ele chama de `a fonte social do sofrimento'.

Desmistificando o papel do progresso científico e tecnológico como um fator imediato na construção da felicidade humana, segundo ele, principal propósito da vida, Freud identifica na civilização e na cultura, pelas regras e limitações que estas impõem aos homens, um impedimento à conquista da felicidade.

Quanto às relações sociais, classificadas por ele como um dos aspectos que caracteriza a civilização, Freud apresenta, sem citar Hobbes, uma visão fortemente hobbesiana, entendendo que pode-se definir o primeiro momento de civilização como aquele em que se deu o início a regulação dos relacionamentos sociais. É este o momento de passagem do estado de natureza para o estado de sociedade que vem intrigando os principais pensadores da filosofia e do pensamento político.

Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais. Se essa tentativa não fosse feita, os relacionamento ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo, o que equivale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a respeito deles no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos. Nada se alteraria se, por sua vez, esse homem forte encontrasse alguém mais forte do que ele. ( p.115)

Reconhece, como Hobbes, que a civilização só é viável quando uma força com poderes maiores do que o poder individual se faz presente.

A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. ....A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. Sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfação, ao passo que o indivíduo desconhece tais restrições. ( p.115)

Apesar de Hobbes já ter dito, séculos antes, que a sociedade só se viabilizara com o surgimento de uma entidade que fosse superior em poder a todos os poderes individuais, o Estado, e que a natureza humana era movida por uma busca compulsiva e incessante pelo poder, pois só assim um indivíduo poderia estar seguro de que não seria vítima de outro mais forte que ele, observa-se em Freud que esta compulsão diz respeito à realização do princípio do prazer que move o ser humano à vida. Em Freud, portanto, a civilização se impõe ao homem, projetando-o de estado de natureza para o estado de sociedade, à custa de restringir aquilo que é considerado o propósito da vida: a felicidade, conquistada através da tentativa de realização do princípio do prazer. As relações sociais são reguladas tendo como base a restrição as liberdades humanas individuais, as quais o indivíduo experimentara antes de viver em sociedade.

Estas restrições, se por um lado viabilizam a vida em sociedade, trazem sérias implicações à organização psíquica do ser humano.

Considera, embora reconhecendo as desvantagens da vida em estado de natureza, que a liberdade do indivíduo não é um resultado da civilização, pelo contrário, a civilização está fundada exatamente na capacidade de, com seus mecanismos reguladores, restringir esta liberdade. O homem se constitui assim, como ser social, aprisionado a um dilema que parece insolúvel: enquanto que no estado de natureza tinha uma liberdade ilimitada, a qual porém tinha pouco valor, uma vez que estava à mercê de encontrar um mais forte à sua frente, no estado de sociedade, a entidade reguladora, a civilização, mantém uma certa ordem, porém ao elevado custo de restringir suas liberdades. Identifica assim Freud que, por conta desta liberdade perdida, o ser humano estará permanentemente em conflito com a civilização, reconhecendo que cada revolução, cada impacto que a humanidade experimenta, é uma tentativa de externar (e superar) este conflito, esta inquietação, e é assim que a civilização evolui:

  1. O impulso de liberdade, portanto, é dirigido contra formas e exigências específicas da civilização ou contra a civilização em geral.Não parece que qualquer influência possa induzir o homem a transformar sua natureza na de uma térmita. Indubitavelmente, ele sempre defenderá sua reivindicação à liberdade individual contra a vontade do grupo (FREUD; p.116)
  2. Com o seu agudo espírito investigativo, onde a falta de cautela a fazer afirmações precipitadas pode prejudicar a credibilidade do cientista, Freud lança sobre este dilema uma esperança associada a uma dúvida:
  3. Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente - isto é, uma acomodação que traga felicidade - , entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se este conflito é irreconciliável. ( p.117)

Recapitulando: Freud define o Eu como sendo fluído em suas barreiras, tendo tanto uma parte interna que se desenvolve para dentro, e é inconsciente, a qual ele chamou de id, como pode se ampliar para o mundo externo , através de uma relação emocional com o objeto causador do seu desejo em extrair prazer do mesmo. Identifica o princípio do prazer como a principal força motriz de toda a vida humana, reconhecendo porém que, seja por limitações constitutivas internas, sejam pelas ameaças e fontes de sofrimento existentes no mundo externo, este programa do princípio do prazer tem poucas chances de ser realizado. Tudo joga contra a realização desta `pulsão de vida'. Considera a regulação da `fonte social do sofrimento' ou seja, as relações sociais, o primeiro momento da civilização, a qual é fundada na capacidade de impor restrições à liberdade individual, originalmente ilimitada, gerando uma relação que projeta a humanidade em um permanente conflito com a sua civilização.

Observando que é graças a sublimação das pulsões que é possível o desenvolvimento cultural, Freud vai abordar como se deu este desenvolvimento; como foi a sua origem e o que determinou as suas formas. Retorna ao mito da família primitiva, já apresentado em Totem e Tabu (Cf. FREUD: 1912), definindo como a causa da formação social primitiva, a ultrapassagem do poder do pai primevo, tirano e possuidor de todas as mulheres, pelos filhos. Após sobrepujar o pai, os filhos descobrem que uma combinação de forças pode ser mais forte que o indivíduo isolado. Em um segundo momento os filhos percebendo que cada um deles queria tomar o lugar do pai, estabelecem as primeiras regras que fundam a civilização primitiva. Erigem um totem que passará a representar a figura do pai, impedindo que assim alguém lutasse para conquistar o lugar do pai, e regulam a relação com as mulheres, forçando a cada um ir buscar a sua companheira em outro grupo tribal.

Assim, o tabu ao incesto consolida-se como a primeira lei estabelecida entre os homens, demarcando uma passagem para a vida em civilização. Portanto, a primeira restrição que a civilização impõem e sobre a qual se funda, é uma restrição sobre a sexualidade humana.

É em Freud que se estabelece a questão da sexualidade como um dos fundamentos da constituição e do desenvolvimento da civilização. Aqui, já distante de Hobbes, Freud constrói um corpo de idéias que , mesmo 100 anos após, continua a causar polêmica e é sempre alvo de críticas e contestações pela moral tradicional.

Os preceitos do tabu constituíram o primeiro `direito'ou `lei'. A vida comunitária dos seres humanos teve, portanto, um fundamento duplo: a compulsão para o trabalho, criada pela necessidade externa, e o poder do amor, que fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual - a mulher - e a mulher, em privar-se daquela parte de si própria que dela fora separada - seu filho. Eros e Anake (amor e necessidade) se tornaram os pais da civilização humana. ( p.121)

Freud não distingue o amor que atraí os seres humanos cuja realização final se dá através do ato sexual, e assim vem constituir as famílias, do amor que une os homens socialmente para constituir as comunidades. Para ele, o substrato dessas relações é um só, apenas que no segundo caso este é desviado em sua finalidade que é a realização sexual direta. Assim cada grupo de seres humanos, além de outros fatores determinantes que causam a sua união, - e um destes fatores é o trabalho como resposta à necessidade de sobrevivência -, são constituídos em sua unidade pelos `laços libidinais' que os atraem e os motivam a se unirem.

O amor que fundou a família continua a operar na civilização, tanto em sua forma original, em que não renuncia à satisfação sexual direta, quanto em sua forma modificada, como afeição inibida em sua finalidade. Em cada uma delas, continua a realizar sua função de reunir consideráveis quantidades de pessoas, de um modo mais intenso do que pode ser efetuado através do interesse pelo trabalho em comum. (p.123)

Entretanto este amor com finalidade inibida, que seria o laço libidinal que forja a relação do indivíduo com a sociedade, ou seja aquilo que transcende a família, não flui livremente de acordo com o desejo do indivíduo; pelo contrário ele é fortemente regulado pela civilização desde os primeiros momentos que esta se constituiu como tal. De alguma forma existe uma relação entre a tendência que a civilização tem em restringir a sexualidade humana com a tendência em construir, cada vez mais, uma ampla unidade cultural. O primeiro e talvez o mais forte impacto causado pela civilização sobre a vida erótica do ser humano foi a proibição de uma escolha incestuosa de objeto. O padrão moral atual da civilização, o qual só permite o relacionamento sexual na base do vínculo único e indissolúvel seria, segundo Freud, o somatório de séculos de restrições à sexualidade humana imposto pela civilização.

Tendo identificado as origens do desenvolvimento do homem e de sua civilização nas restrições às liberdades individuais, e principalmente na restrição a realização dos seus desejos sexuais, a sexualidade passa a ter importância fundamental no pensamento social de Freud. Esta, definida por ele como o `protótipo da felicidade', sendo a felicidade o propósito da vida, vai se encontrar acuada e restringida diante da civilização, sendo frustrada em suas ambições de cumprir o programa do princípio do prazer

Tendo apresentado a libido como uma força que visa a unir todos os homens em comunidades através dos laços libidinais, chamado por ele de `a libido inibida em sua finalidade' Freud debruça-se agora sobre um outro aspecto da constituição humana, tão forte e igualmente poderoso quanto a sexualidade: a agressividade. Esta é para Freud parte fundamental e inalienável da natureza humana. O ser humano, diferentemente do que a moral cristã prega - e não percebe-se em Freud nenhuma crítica à moral, apenas uma incapacidade desta em reconhecer certas verdades--, Freud joga as suas luzes sobre o lado negativo desta natureza humana :`os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes pulsionais deve-se levar em conta uma poderosa quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é , para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. ( p.133).

É o controle e a regulação desta agressividade que tem sido o maior desafio da civilização. A religião, a ética, são resultados destes esforços coibitivos sobre a agressividade humana.

Observando Freud que, apesar de séculos de repressão à agressividade `estes empenhos da civilização até hoje não conseguiram muito', e reconhecendo a agressividade como uma característica constitutiva e importante da natureza humana. Ele faz, então, de forma quase profética, uma crítica às experiências do socialismo implantado na União Soviética, principalmente pelo fato do marxismo identificar na propriedade privada a causa de todos os males sociais e, uma vez esta sendo abolida a humanidade estabeleceria um novo e qualitativamente superior patamar de felicidade.

Não estou interessado em nenhuma crítica econômica do sistema comunista; não posso investigar se a abolição da propriedade privada é conveniente ou vantajosa. Mas sou capaz de reconhecer que as premissas psicológicas em que o sistema se baseia são uma ilusão insustentável.....A agressividade não foi criada pela propriedade. Reinou quase sem limites nos tempos primitivos, quando a propriedade era ainda muito escassa, e já se apresenta no quarto das crianças, quase antes que a propriedade tenha abandonado sua forma anal e primária; constitui a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas. ( p.135)

Avança com sua lógica destruidora confirmando que o amor reinante em algumas comunidades só é possível se o grupo identificar algum grupo externo sobre o qual possa descarregar esta agressividade. Assim, para Freud, a civilização se funda a medida que constrói a capacidade de regular, impondo severas restrições, a dois impulsos estruturais da vida humana: a sexualidade e a agressividade. São estes dois impulsos que movem o ser humano na sua busca incessante em realizar o programa do princípio do prazer, e que jamais será possível realizar, pois a vida em sociedade, resultado do desenvolvimento da civilização, só é possível graças às restrições reguladoras sobre estes impulsos.

Reconhece, nestas restrições, a sexualidade e a agressividade, como um enorme sacrifício imposto ao ser humano, uma vez que tudo isto vai de encontro ao princípio que move e impulsiona este para a vida, o princípio do prazer, daí se explicando porque é difícil ser feliz nessa civilização. `O homem civilizado trocou a parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança': com esta frase Freud resume bem o dilema do homem diante da civilização.

Fazendo uso da teoria psicanalítica, Freud aprofunda a compreensão da natureza humana e do seu dilema diante da civilização, através do conceito de pulsão, teoria já desenvolvida por ele em trabalhos anteriores. Classificando-os em duas categorias: `pulsão do ego' e `pulsões objetais'; Freud tenta refletir sobre estas instâncias constitutivas do ser humano em suas relações com a civilização. Na verdade aqui reside uma original marca do pensamento freudiano: passar do microcosmo ao macrocosmo do ser humano sem nenhuma descontinuidade, demonstrando um domínio intelectual sobre várias áreas do conhecimento humano, utilizando-o com sensibilidade e ousadia admirável.

Já tendo apresentado a pulsão sexual, classificada como responsável pela permanente tarefa de unir a vida orgânica, o qual ele chamou de Eros [7], Freud apresenta o que considera o antípoda à pulsão da sexualidade, que é a existência de uma pulsão de morte a qual opera igualmente na vida orgânica, só que no sentido contrário ao de Eros, relacionando-se com este em um permanente e incansável conflito. Foi em sua obra Mais Além do Princípio do Prazer (FREUD: 1920) que, pela primeira vez apresentou a existência dessa pulsão de morte na estruturas das coisas vivas. Neste texto do Mal-Estar...,Freud cita as suas descobertas registradas em Muito

Além do Princípio do Prazer:

Partindo de especulações sobre o começo da vida e de paralelos biológicos concluí que, ao lado da pulsão para preservar a substância viva e para reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outra pulsão, contrário àquele, buscando dissolver essas unidades e conduzi-las de volta ao seu estado primevo e inorgânico. Isso equivalia a dizer que, assim como Eros, existia também uma pulsão de morte. Os fenômenos da vida podiam ser explicados pela ação autodestruição concorrente, ou mutuamente oposta, dessas duas pulsões. ( p.141)

Assim, a pulsão de morte poderia em algum momento se colocar a serviço de Eros projetando a sua agressividade para o mundo exterior. Podendo também, uma vez que o mundo externo reprime a possibilidade de descarregar esta agressividade, esta voltar-se para dentro do individuo em forma de `auto-destruição'. Reconhece Freud que as duas pulsões se encontram mescladas mutuamente e em proporções variadas, sendo de difícil reconhecimento.
São estas forças constitutivas do ser humano que têm movido, e movem, a humanidade ao longo do desenvolvimento de toda a civilização. Para Freud, a luta e o conflito incessante destas duas forças poderosas da natureza humana tem sido o verdadeiro motor da história.

Apresentando a sua cosmovisão sobre os mecanismos da natureza humana que movem e forjam o desenvolvimento da civilização, tendo como motor principal deste processo de desenvolvimento, duas forças igualmente poderosas e antagônicas - Eros e pulsão de morte -, cabendo a cada indivíduo, em seu relacionamento com o mundo externo, na medida do possível domésticá-las. Freud situa que o progresso da civilização, impulsionado por estas relação dialética entre Eros e Tanatos, é fundado em um delicado equilíbrio, no qual a síntese é o homem e sua civilização em um certo momento no tempo.

Na luta cultural entre o homem com suas pulsões e a civilização, Freud questiona qual o mecanismo utilizado pela última para inibir a agressividade humana. É estudando a história do desenvolvimento do indivíduo que ele identifica um mecanismo extremamente eficiente e inusitado: a agressividade é introjetada para o interior do sujeito, dirigida para o interior do próprio Eu `é enviada de volta para o lugar de onde proveio'. Se institui dentro do Eu uma instância que Freud deu o nome de supereu, o qual atua sob a forma de consciência, como um vigilante censor disposto a orientar a agressividade na forma de punição sobre o Eu. Se estabelece entre estas duas instâncias uma tensão que foi denominada de `sentimento de culpa' e que demanda para o sujeito uma necessidade de punição.

A civilização, portanto, consegue, dominar o perigoso desejo de agressão do indivíduo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada ( p.147)

Como esta instância faz parte da consciência, nada pode escapar ao seu conhecimento, atuando este como um atormentador fiscal dos desejos e pulsões do Eu. Quando a vida em sua relação com o mundo externo está normal, sem distúrbios maiores, o supereu não exerce o seu controle de forma tão intensa, entretanto quando por alguma adversidade externa o homem passa a sofrer, este imediatamente busca em seu interior causas na sua pecaminosidade para explicar o sofrimento que vem de fora, elevando as exigências da consciência e promovendo sua auto- punição. Este tipo de comportamento é encontrado em vários povos, ao longo da história, onde atua de forma rigorosa a religião como papel de mantenedor de um supereu social. Freud identifica este comportamento ao de um estágio infantil original da consciência humana, que sobrevive lado a lado ao supereu já instituído no indivíduo. Graças a este sentimento primitivo infantil, o destino é identificado com a figura paterna. Se as condições externas são hostis e causam sofrimento, a percepção é que este ser supremo não o ama mais, merecendo sacrifícios para redimir os pecados que causaram tal infortúnio, e com isto ser perdoado e ter de volta o amor deste pai simbólico.

Desta forma, o `sentimento de culpa' é composto por duas componentes; a primeira, que é originária do medo de uma autoridade, que foi instituída com o processo civilizatório, representando a lei; e a segunda é originária do medo do supereu. Enquanto que a autoridade exige a renúncia das satisfações das pulsões, uma vez que estes inviabilizariam o organização social, o supereu é mais agudo em suas exigências. Além da renúncia às pulsões ele demanda do Eu punição, uma vez que os desejos proibidos continuam existentes dentro do sujeito, impulsionados permanentemente pelo motor da vida humana : o princípio do prazer.
Freud demonstra qual a relação entre a renúncia a pulsão e o `sentimento de culpa': inicialmente a renúncia a pulsão é proveniente do medo de uma autoridade externa; já a severidade do supereu é uma representação desta autoridade externa, só que com um agravante, enquanto que a renúncia a pulsão satisfaz a autoridade externa, ou pelo menos atenua o medo de perder o amor desta autoridade, a renúncia instintiva não basta para o supereu uma vez que o desejo persiste, e este está sobre a mira severa do supereu, pois ele é parte da consciência. Este mecanismo, identificado por Freud nas suas investigações clínicas é causa de severas enfermidade psíquicas do indivíduo, inviabilizando qualitativamente a vida do mesmo.

Isto representa uma grande desvantagem econômica na construção de uma supereu ou, como podemos dizer, na formação de uma consciência. Aqui, a renúncia instintiva não possui mais um efeito completamente liberador; a continência virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor. Uma ameaça de infelicidade externa - perda de amor e castigo por parte da autoridade externa - foi permutada por uma permanente infelicidade interna pela tensão do `sentimento de culpa'. (p.151)

A hipótese central do Mal-Estar..., a qual repousa no surgimento da civilização como uma função mediadora e restritiva sobre as forças instintivas da natureza humana se desdobra em Freud, para a compreensão da formação da consciência humana.

Descrevendo as inter-relações entre Eu e supereu, Freud identifica dois estágios fundadores da consciência humana: o primeiro é a renúncia a pulsão devido ao medo da agressão externa, a autoridade, a lei; e o segundo momento é a organização de uma autoridade interna, o supereu, e a renúncia da pulsão devido ao medo desta censura interna. Com relação ao supereu, o Eu se submete a um estado de dominação que o projeta em uma situação onde a intenção de um desejo (originado para atender a uma demanda instintiva) tem a mesma força, como geradora de `sentimento de culpa', da realização de uma ação para atingir este mesmo desejo. Ação e intensão tem o mesmo valor na estrutura interna do Eu.

É com base no conceito de renúncia a pulsão que Freud apreende o momento do surgimento da consciência:

Toda renúncia a pulsão torna-se agora fonte dinâmica de consciência, e cada nova renúncia aumenta a severidade e a intolerância desta última. Se pudéssemos colocar isso mais em harmonia com o que já sabemos sobre a história da origem da consciência, ficaríamos tentados a defender a afirmativa paradoxal de que a consciência é o resultado da renúncia pulsional, ou que a renúncia pulsional (imposta a nós de fora) cria a cosnciência, a qual, então, exige mais renúncias pulsionais (p.152)

Segue Freud, descrevendo através do conceito de identificação, como se organiza o supereu. Identifica que este se institui através de um jogo dialético entre renúncia instintiva e formação de consciência, onde a autoridade externa tem a função de dar origem ao processo. Na criança, observa Freud, se desenvolve uma quantidade considerável de agressividade contra a autoridade, no momento em que ela é privada de satisfazer as suas primeiras satisfações instintivas (satisfações incestuosas, uma vez vez que ela ainda experimenta uma relação fusional com a mãe). Com a atuação dos `mecanismos familiares' ela se vê obrigada a renunciar à satisfação desta agressividade, encontrando uma saída para esta situação economicamente difícil, do ponto de vista das forças instintivas. Ela se utiliza do recurso da identificação com a autoridade, incorporando-a. É esta representação, construída através do mecanismo da identificação, que vem se constituir em seu supereu.

O relacionamento entre o supereu e o Eu constitui um retorno, deformado por um desejo, dos relacionamentos reais existentes entre o Eu, ainda individido, e um objeto externo (p.153)

Para Freud, a consciência surge em decorrência da repressão de um impulso agressivo, o qual é um reflexo do impulso agressivo originado pela força da autoridade externa, sendo através da identificação, que o indivíduo retorna esta mimese de agressividade como reação a restrição das suas pulsões, por parte desta mesma autoridade.

Identifica, entretanto que na formação do supereu bem como no surgimento da consciência, existem fatores inatos atuando de forma combinada com influências do ambiente real no qual o indivíduo estar imerso. Estas variáveis são consideradas por Freud como resultantes de um modelo filogenético que acompanha a evolução da espécie humana.

Assim, a constituição do supereu está diretamente relacionada com a possibilidade de se atingir a ultrapassagem do estado de natureza para o estado de sociedade, pois é ele que através da identificação com a autoridade, - processo descrito detalhadamente nos paragrafos anteriores -, se impõe como istância essencialmente depositária da lei e da autoridade, viabilizando a organização social.

Aqui Freud retoma o mito do pai primevo (Cf. FREUD 1912/13) para explicar a instauração do supereu e suas consequências no processo civilizatório.

Criou o supereu pela identificação com o pai; deu a esse agente o poder paterno, como uma punição pelo ato de agressão que haviam cometido contra aquele, e criou as restrições destinadas a impedir uma repetição do ato ( p. 156)

Desta forma, ao longo da história, as várias gerações reproduzem esta agressividade contra o pai, sendo ela sempre acompanhada de um `sentimento de culpa' equivalente em intensidade a primeira. A humanidade foi constituindo um supereu social, cada vez mais fortalecido por cada parcela de agressividade que era reprimida.

O valor de pensamento social de Freud, e que difere de outros pensadores, está na capacidade de refletir a vida humana como parte de um contínuo que tem o seu limite inferior na vida orgânica, o microcosmo biológico, e o seu limite superior a vida em sociedade (civilização). Freud, perpassa, com as suas descobertas, o ser humano e o coloca nesta escala da vida como apenas um elemento desta cadeia, não tendo o homem privilégios ou isenções diante de certos mecanismos e pulsões que organizam a vida microrgânica, ou a vida em sociedade. Para Freud, Eros e Tanatos, são também as mesmas pulsões que organizam o desenvolvimento humano e da civilização.

4.) O Homem entre a Barbárie e a Cultura